Vergonha: o sentimento que nos faz encolher

Você já sentiu vontade de desaparecer depois de errar? Entenda por que a vergonha pode ser tão intensa e como começar a olhar para essa emoção com mais consciência.

AUTOCONHECIMENTO E TRANSFORMAÇÃO

Tatiana Costa

8/27/20265 min read

person in brown long sleeve shirt covering face with hand
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Por que algumas situações despertam uma sensação de inadequação tão profunda? Entenda como começar a compreender o que existe por trás da vergonha que você sente.

Você já sentiu vontade de desaparecer depois de cometer um erro?

Talvez tenha evitado falar em uma reunião porque teve medo de parecer incompetente. Ou apagado uma mensagem antes de enviá-la várias vezes, preocupado com a forma como seria interpretada.

Talvez tenha recebido um elogio e, em vez de simplesmente recebê-lo, tenha pensado:

“Se eles soubessem quem eu realmente sou, não diriam isso.”

A vergonha pode aparecer de muitas formas. Às vezes, ela é evidente. Outras vezes, está escondida atrás do perfeccionismo, da autocobrança, da necessidade de agradar ou da dificuldade de deixar que alguém conheça nossas vulnerabilidades.

E existe algo particularmente doloroso nela: a vergonha não diz apenas “eu fiz algo errado”. Ela pode fazer você sentir que existe algo errado em você.

Existe uma diferença entre vergonha e culpa

Vergonha e culpa podem aparecer juntas, mas não são exatamente a mesma coisa.

A culpa costuma estar relacionada a uma ação: seria você entender que fez algo que considera errado. Por exemplo: “Eu não deveria ter respondido ele daquela forma.” Já a vergonha está mais relacionada à percepção de si, é você sentir que há algo de errado com você. Entender essa diferença pode mudar completamente a maneira como lidamos com aquilo que aconteceu.

A culpa pode levar à reparação. A vergonha, quando intensa, pode levar ao isolamento e à tentativa de esconder aquilo que acreditamos ser inadequado em nós.

Isso não significa que a vergonha seja “ruim” ou que nunca tenha uma função. Assim como outras emoções, ela pode estar relacionada à percepção que desenvolvemos sobre pertencimento, aceitação e a avaliação que os outros tem a nosso respeito.

O problema começa quando o medo de sentir vergonha passa a organizar toda a nossa vida.

Vamos pensar em um situação específica…

Imagine uma pessoa que recebe uma crítica do chefe. O comentário foi objetivo e talvez até necessário. Mas ela passa o resto do dia pensando:

“Eu sou incompetente.”

“Ele deve achar que eu não sirvo para isso.”

“Todo mundo percebeu que eu não sou boa nisso. Eu sou uma farsa!”

A intensidade da reação da pessoa pode ter relação com o significado que aquela crítica adquiriu para ela. Pode ser que, em algum momento da sua história, errar tenha significado ser humilhada(o), talvez ela tenha aprendido que precisava acertar sempre para receber aprovação e assim saber de fato quem ela é, ou até mesmo se sentir capaz.

Não podemos concluir o porque alguém sente vergonha, mas podemos investigar.

A psicanálise: quando aprendemos a olhar para aquilo que não percebemos

A contribuição da psicanálise para essa reflexão está justamente na ideia de que:

  • Nem tudo aquilo que influencia nosso comportamento está imediatamente disponível à nossa consciência - está no famoso INCONSCIENTE.

Quando Freud desenvolve o conceito de inconsciente, ele o faz para pensar sobre desejos, conflitos, lembranças e representações que podem permanecer fora da consciência, mas ainda assim continuar participando da vida psíquica. Isso significa que, algumas vezes, aquilo que fazemos e sentimos possui sentidos que ainda não conseguimos reconhecer.

  • Por que essa situação me atingiu tanto?

  • Por que preciso tanto ser aprovado?

  • Por que um erro pequeno parece confirmar que não sou bom o suficiente?

  • Por que ser visto é tão desconfortável?

    interessantes para investigar o motivo da emoção, e assim entender melhor sobre si mesmo. Às vezes nosso primeiro pensamento é querer saber como se livrar da emoção, ou até mesmo, querer encontrar formas de controla-la. Entender o porque a sentimos não é o mesmo que simplesmente tentar eliminar a vergonha, mas sim encontrar o caminho para lidar com a emoção de forma mais inteligente.

Quando a vergonha e o medo aparecem nos relacionamentos

A vergonha também pode interferir profundamente na maneira como nos relacionamos da seguinte forma:

  • Quem tem medo de ser rejeitado pode esconder necessidades.

  • Quem tem medo de parecer carente pode fingir que não se importa.

  • Quem tem medo de parecer fraco pode nunca pedir ajuda.

  • Quem tem medo de ser abandonado pode tentar controlar a relação.

E, às vezes, a pessoa acredita que está simplesmente tentando manter o relacionamento, mas pode existir algo muito mais profundo: uma tentativa de evitar novamente a sensação de não ser suficiente para existir ali.

É por isso que, muitas vezes, olhar apenas para o comportamento em si pode não ser suficiente. Mais do que perguntar o porque você sente a vergonha, é compreender: o que você acredita que aconteceria se não conseguisse… agradar… parecer inteligente… ser julgado… não ser admirado?

Então, o que podemos fazer, nesse caso em relação a vergonha, quando ela diminui?

Existe uma mudança importante quando conseguimos sair da cobrança que temos em “Eu não deveria sentir vergonha” para o questionamento de “Por que estou sentindo vergonha?”

Essa mudança parece pequena, mas transforma a maneira como reagimos diante das nossas emoções. Em vez de lutar contra aquilo que sentimos, começamos a observar. E isso traz mais leveza, pois, em vez de permanecermos presos ao peso do julgamento, passamos a investigar o porquê de reagirmos daquela maneira.

Esse movimento de curiosidade é muito diferente da autocobrança que pode te sobrecarregar e fazer com que você se sinta sempre inadequado. E aqui eu destaco uma das razões pelas quais a terapia pode ser tão importante.

Um processo para aprender a “aprender sobre si mesmo”

A terapia é um processo onde aprendemos a acolher as emoções que sentimos, e acolher não significa passar a mão na cabeça, nem acreditar que tudo o que fazemos está certo.

Entender essas diferenças nos permite viver muitas etapas, dentre eles: aceitar quem somos, entender como aprendemos a reagir ao que sentimos, permitir que o erro que cometemos seja elaborado sem transformar a toda a identidade em um julgamento.

Caminhando para o fim desse texto, eu quero deixar um simples exercício de reflexão para você. 

O que existe por trás da sua vergonha?

Na próxima vez que sentir vergonha, não tente imediatamente afastá-la. Reflita sobre as questões abaixo:

1. O que aconteceu?

Descreva apenas os fatos, sem interpretações.

2. O que eu senti?

Vergonha? Medo? Humilhação? Insegurança? Culpa?

3. O que pensei sobre mim naquele momento?

“Isso significa que eu sou…”

4. O que eu tive medo que a outra pessoa pensasse sobre mim?

5. Essa sensação me parece familiar (eu já senti isso antes)?

6. O que eu precisaria ouvir de alguém acolhedor neste momento?

Não para negar o que aconteceu, mas para conseguir olhar para si sem crueldade.

E, finalmente:

7. O que posso fazer agora de maneira coerente com quem quero ser?

...

O autoconhecimento não termina na compreensão.

Ele precisa abrir espaço para escolhas diferentes.

E você não precise se tornar outra pessoa, talvez precise apenas conhecer melhor aquela parte de você que passou tanto tempo se escondendo.

A vergonha frequentemente nos faz encolher. Encolhemos nossas opiniões. Nossas necessidades. Nossos erros. Nossos desejos. Nossa vulnerabilidade. Tentamos ocupar menos espaço para diminuir a possibilidade de sermos julgados.

Algumas histórias precisam de tempo para serem compreendidas. E algumas feridas precisam de um espaço seguro para finalmente ganhar palavras.

Nota importante: este artigo tem caráter educativo e reflexivo. A escrita e a reflexão sobre as próprias emoções podem contribuir para o autoconhecimento, mas não substituem psicoterapia, avaliação psicológica ou acompanhamento médico. Se a vergonha estiver causando sofrimento intenso, isolamento ou prejuízos significativos na sua vida, procure ajuda profissional.

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